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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Quintus Horatius Flaccus


Não dá para evitar. Mais de um dia com o Horácio e suas manias de organização, já me levam à irritação incontida. Pois foi assim que começou o problema, pois ele tinha que ir lá bisbilhotar e ver se eu estava mesmo guardando a roupa.
Eu estava desarrumando a mala, no segundo dia de Rio, o que para mim é cedo ainda, mas para Horácio é o cúmulo da zona, quando ele viu as bolotas de haxixe. Acho que ele nunca viu isto na vida, e me perguntou o que era.
— Ahmm, hum, quer dizer — e resolvi inventar uma estória — são balinhas de açucar de beterraba, feitas no Cazaquistão.
— Oba, me dá uma — e estendeu a mão.
Dei-lhe uma palmada na mão.
— Nada disto! É para as visitas. — Já pensou se ele mastiga um bagulho desses?
Horácio não pareceu muito conformado, mas sugeriu logo:
— Então vamos botar num potinho lá na sala.
Gelei.
— De jeito nenhum. É tudo meu.
— Mas não pode ficar aqui no quarto. Pode dar formiga.
Porra, quando é que vou ter que explicar para esse cara que Papai Noel adora receber esse tipo de presente?
— Não se preocupe Horácio. Eu cuido disso.
Ele saiu meio emburrado, e foi para a sala. Tratei de esconder a muamba em cima do armário.

Dali a pouco, fui para a sala. Ele ficou me olhando da poltrona.
— Quero uma daquelas balinhas. Quero ver se é verdade o que você está falando.
— Claro que é!
— Não acredito. Me dá uma para chupar.
Acendeu a luz vermelha.
Ele vai ficar enchendo o saco até eu dar uma.
Resolvi mudar imediatamente de assunto.
— Quintus Horatius Flaccus.
— Hem?
— Você podia se chamar assim, em vez deste seu nome esquisito.
— Esquisito como?
— Esse Kahn. Horácio Kahn. Absurdo.
— Porque? Alguma coisa contra os judeus?
— Contra judeus, nunca. Mas contra ignorantes, sim.
Ele se empertigou.
— Que estória é essa?
— Tinha de ser Khan. K-H-A-N. Khan.
— Mas é K-A-H-N.
— Teu pai.
— Meu pai, o quê?
— Ignorante. Não sabia soletrar. Errou no cartório, e você se ferrou.
Ficou fulo da vida.
— Minha família é K-A-H-N, há gerações!
— Gerações de ignorância.
Horácio ficou roxo e se trancou no quarto.
Hehehe, funcionou.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Enfim, a Cidade Maravilhosa!


Para não ficar enchendo o ouvido de incautos, digo logo que cheguei estropiado, mas cheguei ao Rio de Janeiro. Tomei o frescão do aeroporto do Galeão até o Santos Dumont, já disposto a enfrentar a raça de motoristas de taxi que ficam esperando os otários ali na saída.
— Leme.
— Leme, onde?
Esses mequetrefes ficam inventando questão onde não existe.
— O Leme é grande pra cacête, né? — Fui empurrando a mala pra cima dele. — Depois eu lhe digo.
Quase desabando sob a minha bagagem mulambenta, lá veio ele com outra.
— O doutor quer ir pelo caminho mais curto?
Gracinha de cara.
— Qual?
— Pelo túnel Santa Bárbara.
— Hum, deixa eu ver. — Botei a mão no queixo e olhei para cima. — Será que dá para ver a esta altura que eu também estou de sacanagem?
Olhei de volta para ele.
— Você quer dizer pegar a Praça Mauá, a Candelária, a Presidente Vargas e seguir até a saída para o Túnel? — Soltei o meu sorriso mais cínico. — Será que pelo túnel Paulo de Frontin não fica mais rápido não?
O cara murchou. Saiu carregando a mala para o bagageiro do táxi, enquanto resmungava.
— Então por que é que não disse que queria ir pelo Aterro logo?



— Cento e cinquenta reais.
Fiquei roxo.
— Cento e cinquenta pra vir do Santos Dumont até a Gustavo Sampaio? Ficou maluco?
O motorista se virou para mim com cara de agora-te-peguei, estendeu a mão e repetiu.
— Cento e cinquenta merréis. — Merréis é a moeda carioca. Quando era cruzeiro, carioca falava merreís. Na época do cruzado, a moeda do carioca era merréis. E quando virou Real, continuou sendo merréis. Só quando é muita grana é que vira contos.  Por exemplo, dois mil merréis vale dois contos, sacou?
— Esquece. Pode seguir para a delegacia. Vamos discutir isso lá.
O cara não se fez de rogado e arrancou.
Me deu medo dos meganhas quererem abrir a minha mala. Só mania de perseguição mesmo. Não conseguia imaginar o que é que os caras poderiam encontrar lá. Talvez só os duzentos dólares de haxixe que eu comprei no aeroporto de Bucareste. Mas quem vai dar bola pra isto, né?
Mas terminou que o taxista só deu a volta na quadra e voltou para a mesma esquina.
Estendeu a mão de novo.
— Então, só cinquenta reais.
— Só pago quinze.
— Trinta.
— Dezesseis e cinquenta.
Aí eu acho que o cara ficou meio puto, porque foi lá atrás, jogou a minha mala na rua, me arrancou do táxi e se mandou.
Tentei cantarolar a Garota de Ipanema, mas não me lembrei de porra nenhuma.
 Não tem a menor importância — e adentrei na portaria.