sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Questões de Sangue


Ontem, logo depois de acordar, passei um café e sentei para tomá-lo junto com um pão dormido com manteiga.
Tudo de pura preguiça, porque poderia ter descido e comprado jornal e pão fresco.
Agora, estava lamentando mais a falta do noticiário, porque o pão velho era só mastigar mais firme e jogar a gororoba pra baixo.
Enquanto cogitava em apanhar um jornal também passado, eis que entra Horácio na cozinha, e se mete em meu complicado problema.
— Você comprou o jornal de hoje?
— Pissurongas.
— Isto aí quer dizer — disse Horácio torcendo o nariz — mais ou menos droga nenhuma?
— Isso mesmo.
Reparei que Horácio trouxe o travesseiro e o colocou no banco antes de sentar em cima.

sábado, 15 de setembro de 2012

Baby Rubi Rides Again


Toca a campainha. Abro a porta. É ela.
— Mas você estava na Romênia!
Baby Rubi está segurando a bolsa enorme enquanto espreme uma bisnaga no sovaco.
Resfolega.
— Porra, você não vai me convidar, não?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O meu santo nome em vão




Parece que estão usando o meu santo nome em vão...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Tribuno de Maracangalha


Eu falei de Alfredo no post passado. Alfredo é o Tribuno de Maracangalha, que existe mesmo e fica no exótico município de São Sebastião do Passé, na Bahia.
E o que viria a ser Passé? Se você for atrás, vai ver que é o que já não está mais na onda, tipo:
— A Isidora está meio passé.
Hem, que Isidora?
— Passé. Mas fala assim, ó, passê. Passê, entende, como se fosse fechado.
— O que fechado?
— Esquece. Fala passê.
Que nem passa?
— É. A Isidora está que nem passa. Está passé.
Que Isidora?
— Esquece.
Mas voltemoa a Alfredo, o Tribuno.

sábado, 1 de setembro de 2012

Complexo de Jocasta


Um paciente me diz que tem relações esquisitas. Outro, que tem relações que não são esquisitas, mas pouco apropriadas.
Vem mais um e me conta que tem relações que não são esquisitas, nem inapropriadas, mas que tem um puta sentimento de culpa em relação a isto.
Este era Laio, que era casado com Jocasta, e pai de Édipo. Puta complexo de culpa.
Para infelicidade de todos, só não vem o que não tem problemas com relações esquisitas e inapropriadas, como foi o caso do Édipo. Como não tinha problemas, nunca o vi mais gordo, e não consegui prever  bulhufas da merda toda que ele ia aprontar.
Édipo foi até sua casa no Meyer, deu um tirambaço em Laio, e fodeu com Jocasta, a sua própria mãe.
Mas Édipo mesmo foi um só. O resto dos filhos babacas todos do mundo tremeram diante da cortina negra que os separam de suas Jocastas e de seus pâramos de indecência.
Não ficou por isso, no entanto. Vendo que Édipo era um só, as Jocastas outras desceram dos subúrbios e mataram todos os Laios.
Só depois, quando seus filhos varões souberam, vieram se locupletar. E se deram mal.
— Se houve um Édipo, ele foi único, aquele que matou o seu próprio Laio. — elas disseram — Para vocês, os outros, é chegado o tempo de irem para Maracangalha. 
Quanto ao verdadeiro e único Édipo, preciso convencê-lo a vir aqui e tomar uma branquinha comigo. Édipo tem que me contar tudo a respeito de Laio. Acho que Nelson Rodrigues o encontrou, e talvez por isso soubesse tantas coisas a respeito da vida real.
Não tenho tanta esperança de que consiga, mas ontem já tive uma consolação — Jocasta, a esquecida, começou o tratamento comigo. Vou provar que o Complexo de Jocasta que andaram dizendo por aí não tem nada a ver com a nave central de sua psiquê.
Por fim, e para que conste, os mother fuckers, que seriam os que teoricamente mais precisam de terapia, não gastam o seu rico dinheirinho com estas besteirices. Preferem comprar bombons da Godiva para suas incestuosas concubinas.

Jocasta, carvão e pastel sobre papel, por Alison Lambert


Quanto a você, meu pobre paciente, que comeu a priminha e está cheio e pútrido com esta canga pesada, esquece.
Como diria o tribuno de Maracangalha, — Ascende comede et deliciai — o que em português seria — Ide, comei e se deliciai, ou falando sem papas— Vai, come e se lambuza.
Beijos do

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Início de uma buchada nas tripos antropomofágicas

Pois é, a turma não era muito sutil na época dos aztecas não. Nem aqui no Brasil. O fato e´ que inventavam estas coisas de oferendas aos deuses e tratavam de se locupletar nos mais gordinhos.

Como se pode ver os chefs estão começando a receita da buchada

Outras tribos do continente, principalmente as brasileiras, gostavam de alguma coisa menos heavy, como lombo, o que incluia os glúteos, as cochas e os inter-costais. Os braços também são apreciados, principalmente quando de jovenzinhas ainda impúberes.
Aquele manto de gordura situado à região da cintura e que compõe o volume de bacon que vão desde a barriga até o costado é considerada por alguns como a melhor parte do sujeito, quero dizer, da oferenda.
Para que os deuses não fiquem infelizes, um número maior de vítimas são ofertadas, o que termina determinando uma sobra muito grande de mantas de toucinho para a felicidade dos burocratas da igreja.
Quando bate estas  iguarias lá em casa, comemos como explendidas linguiças feitas da carne e da banha das oferendas, além do restante, que degustamos como magnífico torresmo.
Os sacerdoter produzem também uma aguardente de cevada que não tem nada a ver com a cerveja que produzem por aqui.

Buchada de Bode


Buchada de bode, ou simplesmente buchada, é um prato típico da região nordeste, feito com miúdos, rins, figado e vísceras do bode lavadas, aferventadas, cortadas, temperadas e cozidas em bolsas (que medem cerca de 8 cm de diametro) feitas com o próprio estômago do animal. 
Buchada de Bode
— Eca, argghh, cuspe, carai, vei! Você ficou maluco?
Horácio me olhou surpreendido.
— Ué, você tem alguma coisa contra?
— Ficou doido? Eu não como este treco, nem que a vaca tussa.
— Por quê, algum preconceito?
O canto da minha boca subiu em um sorriso irônico.
— Nada contra o bode, a não ser o sovaco dele. Mas não como miúdos.
Horácio pensou um pouco.
— Então, vai um mocotó?
— Eca, lá vem você de novo.
— E um joelho de porco?
— Para com isso, cara. Você só vem com coisa nojentinha.
— E um Eisbein, você topa?
— O que isso?
— Um prato alemão.
Me senti um pouco mais seguro.
— Então eu topo.
Esperamos até quarta-feira e fomos num restaurante lá no centro, que só tinha quatro mesas, e uma fila gigantesca para entrar. Resmunguei um pouco, mas topei esperar.
Ao final, valeu a pena. O prato era magnífico.
Eisbein

— Valeu, Horácio, gostei!
Ele sorriu e me convidou para outra curtida.
— Semana que vem, vou lhe levar para comer um Haggis.
— O que é isso?
— Um prato escocês.
Achei que fazia bem o meu gênero.
— Eu topo.
E de novo, achei um barato.
Chegando em casa, e ainda arrotando o Haggis, fiquei curioso.
— Vem cá, Horácio, do que é feito esse prato?
Horácio pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Já lhe respondo, Karl. Mas me lembrei que tenho que pegar uma encomenda na portaria.
— Tudo bem — e me sentei, empantufado, no sofá.
Dali a pouco, o telefone tocou.
— Alô?
— Karl, aqui é o Horácio.
— Algum problema?
— Sabe o Eisbein que você comeu na semana passada?
— Sim?
— Era joelho de porco.
O meu estômago contraiu um tiquinho.
— Porra, você me fez comer aquela droga!
— Você bem que gostou.
Meu estômago contraiu mais um pouco.
— E hoje? O que era aquele prato escocês?
— Buchada de bode.
Tive que sair correndo para o banheiro.