domingo, 12 de agosto de 2012

Querida Senhora


Querida senhora Petroniska:
Antes de mais nada, gostaria de lhe dizer que estou num vôo Lisboa-Rio, e que as coisas não estão muito boas por aqui.
Já estamos sobre o Atlântico — se a senhora não sabe o que é isto, é um rio enorme que fica entre o país dos portugas e o meu, Terra Brasilis — e está quebrando o maior pau.


Não, não é um galho grande. É uma tempestade bestial. Bestial de ruim, e não de boa, como dizem os portugas.
Eu estou me sentindo muito mal e…
KABUM!
Acabou de cair um raio no avião. E eu estou muito enjoado.
Muuuiiiiito.


Eca! Estou reescrevendo tudo de novo, porque houve um pequeno desastre aqui.
Mas a enfermeira, digo, a comissária, veio aqui e mesmo com a maior cara de nojo resolveu as coisas. Foi bom, porque os dois passageiros meus vizinhos se mandaram e agora tenho mais espaço.
O que é que eu queria lhe dizer mesmo?
Ah. Sabe aquele salaminho que eu lhe encomendei? Dá para mandar por DHL para mim? Mande a pagar que o meu amigo Horácio resolve.
Sempre seu,
Karl Malak



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eu mato esta Gorda!


Quando as coisas estão muito bem, eu garanto que elas vão piorar!
Eu estava feliz com o bilhete da TAP na mão. E ele ainda era para as seis da tarde o que me daria tempo de resolver minhas coisas.
Daí resolvi juntar os meus parcos caraminguás num baú desmelinguento onde teriam de caber minhas roupas — poucas — meus livros, e minhas panelas. Lembrei inclusive de guardar o meu bandolim, sem o qual não seria nada nas jam sections do Leblon.
Mas não é que já apavorado pela falta de tempo, me surge a Baby Rubi querendo de todo jeito um atendimento?
Não adiantou explicar a ela que eu ia embora e que não ia mais atendê-la. Ela abriu sua bolsa e sacou quatrocentos dólares.
— Eu pago isto pela consulta!
Rico sempre lhe corrompe, né? Quatrocentos doláres ia me dar uma vida boa pelo menos pelas próximas 72 horas que eram o tempo de chegar no Rio. Topei.
E a gorda se estirou no recamiê e começou a disparar uma algarávia que não entendi nada. 
Lá pelas tantas perguntei se ela se importava se eu continuasse a arrumar as minhas coisas e ela fez um sinal com a mão enquanto continuava a falar sem interrupção. Assumi que sim, que topava. E continuei tranquilo.
Tudo pronto, fui lá encerrar a sessão e acho que ela não entendeu.
— Mas como! A gente só está começando.
— Rubi, tem uma coisa essencial sobre a relação terapeuta-paciente que você ainda não conhece. É muito forte. Quer ver?
Ela assenti. Disse-lhe que relaxasse e esticasse o pescoço, respirando fundo.
— Fecha os olhinhos. — Fui até carinhoso com ela.
E fiz o que eu chamo de manipulação fono-respiratória. Ou seja, parti para o estrangulamento.
— Baby, o que mais de essencial eu posso ensinar a você em nossa relação é a extrema proximidade entre a vida e a morte. Chama-se Morte por Asfixia.

Quando vi que Baby estava próxima do entendimento final do que eu estava demonstrando, relaxei e a ajudei a se levantar.
Com ela aparentemente recuperada, apesar da tosse de cachorro, repeti a pergunta.
— Compreendeu a relação mais próxima que um terapeuta pode manter com um paciente?
Baby Rubi ainda segurando o pescoço assentiu, e tratou de sair de fininho.
Vi-a lá fora, meia tonta. Quase que pegou o táxi que já me esperava, mas dei um grito, e se mandou apressada. Pensei em lhe recomendar um xarope para a faringite, mas deixei passar.
Joguei tudo dentro do carro e nos mandamos para o Aeroporto de Otopeni.
Na estrada, tentei assoviar a Garota de Ipanema mas não lembrava de porra nenhuma.
Pensando bem, já não tinha a menor importância.

Mudança de Planos


Vou para o Brasil!
Recebi um telegrama do Horácio dizendo que posso ir na loja da TAP pegar uma passagem para o Brasil. Uma escala em Lisboa, e vamu-qui-vamu!
Contou-me que poderei ficar hospedado em seu apartamento na Nossa Senhora de Copacabana. Com a minha pensão de anistiado e a possibilidade de dar aulas na UFRJ, não tenho porque ficar dependendo de gordas e militares em Bucareste.
Depois eu conto mais.

p.s. Por que telegrama? Porque não tenho telefone, pombas!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Surpresas na Embaixada


A embaixada me chamou antes do que eu esperava. Fui até lá crente que ia receber o meu passaporte, mas vieram com exigências como atestado de bons antecedentes, cartas de referência e outras impossibilidades.
Pedi para falar com o embaixador, mas o máximo que permitiram foi uma conversa com um segundo secretário de merda, que não ficou muito impressionado com as minhas ameaças de espalhar na internet que a embaixada não queria repatriar um antigo perseguido político.
O secretariozinho,  acho que para não deixar o seu rabo na reta, terminou por chamar o Cônsul.
No final, terminamos acertando os três que a única exigência que vou atender vai ser a da fotografia, porque sem isto não dá para sair passaporte, né?
O cônsul bancou o engraçadinho e me perguntou se o meu interesse de voltar para o Brasil estava ligado à pensão de perseguido político a qual eu teria direito.
Tomei um susto.
— Pensão? Que pensão? Quanto? Fiquei rico?
O melhor é que eu nem tinha ideia desta moleza!
Ele me disse que provavelmente eu teria direito a algo entre cinco a seis mil reais. Fiz a conta para leus, e deu uma fortuna.
— Claro que não! Como é que o senhor acha que eu possa estar interessado nesta questão comezinha? — E completei com uma pérola. — Sou até capaz de doar a pensão para a caridade…
O Cônsul olhou para mim com cara de vômito.
Será que ele está pensando que sou um pústula, ou um aproveitador do tipo?
— Não, nada disto! Só estou com saudades da Pátria.
Saudades, claro. Conta outra.

p.s. Só estava querendo este passaporte por questões de imunidade, mas este lance da grana é formidável.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Macumba-lele-ai-ai!


Apareceu mais um cliente. Foi bom, porque os trezentos e tantos leus do militar já estavam no final. Terminei por só comer batatas cozidas com sal e um pouco de um óleo que o meu vizinho me deu e do qual não quero pensar na origem. A verdade é que parecia óleo de trator.
É uma paciente já idosa e que diz ser brasileira. O sotaque dela é meio esquisito, parecendo de um carioca alemão. Dá para entender?
Se eu disser que ela é obesa, estou sendo delicado. Tem alguma coisa em torno de um metro e sessenta e deve pesar uns cento e quarenta quilos. Disse-me que o seu nome é Baby Rubi.
Quando eu disse que ninguém se chama Baby, ela tirou as calcinhas pela cabeça.
— Mas eu me chamo assim!
— Impossível. Ninguém se chama de Baby. Isto pode ser um apelido, ironia, chalaça, mas nome que é nome, certamente que não.
A mulher estava reclinada no divã, mas com a minha afirmativa, deu um pulo e botou o dedão na minha cara.
— Está querendo levar um sopapo?
Como eu estava a fim dos 600 leus que pensava em lhe tomar, e não queria tomar uma surra, tratei de recuar.
— Não. Não, em absoluto! Acredito piamente que a senhora se chama mesmo Baby. Até porque tem a Baby Consuelo, o Baby Pignatari e, afinal de contas, por que é que não poderia haver alguma Baby Rubi, né?
A senhora, que devia ter lá os seus oitenta e oito anos, se acalmou, e resolveu me contar a sua história. Para resumir, ela é a Bruxa daquela conversa do João e Maria, e alega que é inocente. Diz que foi enrolada pelos dois.
Afinal, eu a interrompi.
— Lamento, mas sua consulta está encerrada.
A dona Baby, como gostava de ser chamada, tirou um relógio do bolso e conferiu.
— Mas não tem nem uma hora de sessão!
— É mas tem, vejamos, cinquenta e dois minutos que já começou. — E antes que ela pudesse esticar a conversa, estendi a mão. — São seiscentos leus, se me faz o favor.
Sabe aquelas bolsinhas de brocado com aquela trave cruzada em cima? Pois bem, não é que a dona Baby puxou uma velha e xexelenta de dentro de suas saias e futucou até conseguir os 600 leus?
Mas era dinheiro. E eu peguei antes que ela se arrependesse.
— É bom que esta consulta funcione, porque senão…
Não entendi nada. Como é que alguém pode querer que uma consulta de psicanálise funcione?
Quase que lhe disse que nem quinhentas funcionam, mas não vou ferrar com o meu ganha-pão assim, né?
Vou mais é tomar um banho de sal grosso, e macumba-lele-ai-ai!


domingo, 5 de agosto de 2012

Os pacientes começam a retornar


Na sexta, já tive dois pacientes. Um deles é novo, mas o outro, de longa data. Quando eu atendi a porta, tomei um susto vendo um militar.
— Doutor Karl?
— Sim? — O fato do cara estar fardado, me assustou, mas o uso do doutor foi um fator tranquilizante.
— Não está me reconhecendo?
— Não tenho a menor idéia de quem é o senhor.
— Nem tendo me atendido por três anos?
Olhei bem para o cara, mas continuei sem a menor idéia de quem era. Tive que esclarecer a minha situação.
— O senhor sabe por onde estive nos últimos cinco anos? — Perguntei.
— Sei. Na cadeia, preso por ter acertado o Marechal Florin num duelo de pistolas.
— É, mas foi só um tiro em seu glúteo esquerdo. Não tenho culpa se ele gastou a sua única bala e depois se virou para fugir. O Marechal poderia ter morrido de uma forma mais digna, com um tiro no peito ou na barriga. Além do mais, nunca vi alguém morrer por causa de um tiro na bunda.
Olhei para o cara e fui logo para a questão.
— Quer uma consulta ou veio me prender?
— Consulta.
— Então entra.
Resulta que o cara estava querendo sair do armário mas não estava com coragem para enfrentar os seus companheiros de arma.
Na hora encrenquei com a estória dos companheiros de armas.
Será que eles ficam lutando espada no escuro? — Mas resolvi não aprofundar a questão e deixei que continuasse.
Fiquei de lero-lero com o cara para ver se ele se identificava, mas não disse o seu nome, e nem eu perguntei.
— Quanto foi?
— Duzentos dólares.
O cara ficou meio branco. Eu tentei melhorar.
— Paga em leu. — Para quem não sabe, leu é o plural de lei, que é a moeda romena.
— Então, é quanto?
— Hum… Oitocentos leus.
Ficou mais branco ainda.
— Não tenho.
— Quanto é que você tem?
Contou na carteira e fez olhar de bunda.
— Trezentos e trinta e sete.
— Serve — e estendi a mão.
Foi-se. E eu, depois de cinquenta minutos de sessão, confesso que não me senti muito culpado de ainda não ter a menor idéia de quem era o cara.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Minha vida com Horácio Kahn


Acho inexplicável esta minha dependência do Horácio, apesar dele se queixar de que a coisa acontece exatamente ao contrário.
No entanto, desde os tempos de UnB, e nós entramos lá em 1967, quando nos conhecemos nas reuniões do diretório, passando pela luta clandestina, até a nossa estada de quatro anos na Romênia, eu sempre precisei de levar o Horácio tal como uma mochila em minhas andanças.
Tudo bem. Não é sempre que me sinto assim. Sei que sou um símbolo para o meu amigo, e o paradigma do que ele quer ser na vida. Mas esta sensação de precisar do Horácio é recorrente.
A minha necessidade imperativa de elogios é óbvia, e considero o Horácio a minha claque particular.
Hoje, ao nos ver ainda vivendo juntos, como dois sessentões irremediavelmente solteiros, e o que é pior, heterossexuais, fico me perguntando se nós compomos os dois lados de uma única moeda.
O fato é que o Horácio é um saco, mas não consigo viver sem ele. O fato dele estar no Brasil agora é um alívio e uma ausência.
Acho que preciso dele para implicar.

p.s. O Horácio é viúvo. A sua amada Nadja faleceu prematuramente. Mas isto é uma outra estória.